Há algumas semanas, numa palestra da Cíntia Moscovich, ela falou de uma geração de escritores que aprendeu como contar histórias através de diferentes meios: quadrinhos, filmes, séries de TV. Ler era só uma parte do aprendizado. Renato Russo cantava sobre a Geração Coca-Cola. Na prática, eu não vivi a época da ditadura como outras pessoas dessa geração. A época da repressão braba já tinha passado quando voltei ao Brasil. Mas eu era vidrada em TV, quadrinhos. E se às vezes tenho dificuldade para enxergar a maneira como a estrutura se manifesta nos livros, em filmes e séries ela é bem mais clara. As graphic novels também têm narrativas bem interessantes. Watchmen, por exemplo, é uma obra-prima, não só em termos de narrativa, mas também em termos visuais. É, efetivamente, uma narrativa muito cinematográfica, motivo pelo qual muitos acharam que dava um bom filme (e a adaptação cinematográfica provou para mim que a série tinha muito mais a dizer do que podia parecer a princípio pois o filme ficou extremamente raso). Watchmen consegue fazer aquilo que os romances tradicionais deveriam fazer: desenhar todo um mundo, neste caso, um 1985 alternativo, em que existem super-heróis e Richard Nixon ainda é o presidente. Ele junta a narrativa tradicional dos quadrinhos com "artigos" de revistas e capítulos de "livros" ao final de cada revista que acrescentam mais dados para tornar o universo desse mundo ainda mais rico. Ao contrário de outras graphic novels que na prática não passam de uma história tradicional de quadrinhos longa, Watchmen realmente tem uma textura de romance e cada capítulo avança com a história, focando principalmente em um dos personagens de cada vez. E junto com a parte visual, você tem uma obra que é considerada uma das melhores graphic novels de todos os tempos. Se você só viu o filme, vá às origens. Vale a pena.
sexta-feira, 12 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
Day by day
Todo dia eu sento nesta cadeira e todo dia batuco neste notebook e todo dia minha bunda fica mais quadrada. Às vezes sinto falta de ter com quem conversar, noutros dias fico feliz de poder passar o dia todo andando pela casa de short e Havaianas, poder brincar com os cachorros no pátio quando me dá na telha, comprar pão do rapaz que passa todo dia na minha porta com uma grande cesta de pães e bolos. Não sei se isso vai continuar ou não. Sinto que este é um ano de transição para outras coisas. Com alguma sorte, terei meu primeiro romance aceito por uma editora. Este é um momento pelo qual venho esperando há muitos anos. Há tempos que sinto que a hora afinal chegou. Vou cruzar os dedos.
domingo, 7 de março de 2010
As ferramentas da profissão
No The Guardian, uma matéria maravilhosa da Hillary Mantel, a vencedora do Booker Prize de 2009, sobre a obsessão de todo escritor com artigos de papelaria. Eu faço parte desse time que só consegue escrever se tem as ferramentas certas. Inclusive, no início do ano, saí em busca desesperada pelos cadernos da Marcos Cícero e não os achava em lugar algum. Eu me apaixonei por eles porque são ótimos para escrever. Eles têm mais linhas por página que os outros cadernos, sem falar que já vem com um marcador de páginas em tecido, assim posso ir direto ao lugar onde parei de escrever na semana anterior. Coloco aqui uma pequena amostra do texto da Hillary. O artigo no Guardian pode ser encontrado aqui.
Writers displace their anxiety on to the tools of the trade. It's better to say that you haven't got the right pencil than to say you can't write, or to blame your computer for losing your chapter than face up to your feeling that it's better lost. It's not just writers who muddle up the tools with the job. The reading public also fetishises the kit.
Das alegrias de se ter um cachorro chamado Wilson - 3
O bom de ter um cachorro é que ele sempre fica feliz em vê-lo quando você chega. Você pode ter ido na esquina, comprar ovos na mercearia, mas na volta, parece que você ficou fora por dias e dias dada a recepção que recebe. No caso do Wilson, isso acarreta alguns perigos. Ele é grande e forte e não preciso ter medo de machucá-lo quando brinco com ele. Mas ele, no seu entusiasmo, ao vê-la chegar no portão do pátio, começa a pular e se você não estiver atenta e se desviar dele, ele pode te derrubar. Ele pula bem alto. Uma vez, ele pulou dentro do carro de uma amiga pela janela quando eu estava lhe passando um DVD com filmes. Eu o levei para a rua para que ela pudesse ver como ele estava e pimba, de repente, ele estava no banco do carona. Ele também adora pisar no meu pé quando pula. Não cheguei a uma conclusão se a mira dele é uma droga ou bem precisa. E Wilson é pesado. Mas ele fica trotando como se estivesse dançando quando está feliz e não consigo brigar com ele. Eu amo meu cão.
Afogada
Terminei ontem a primeira e primitiva versão do romance e ontem mesmo comecei a segunda. Isso depois que consegui chegar em casa, apesar do dilúvio. Nove e meia da noite e me vi parada na calçada da Visconde de Pirajá, cheia de compras de supermercado nas mãos, encharcada, rezando que um táxi parasse e topasse me levar até em casa. Porque pela descrição dos dois taxistas que pararam para mim e depois se recusaram a me levar, todo o Rio Comprido estava debaixo d'água. Ironicamente, um dos filmes que passaram no telão na Travessa naquele sábado foi justamente Singing in the Rain. Enfim consegui achar um santo que topou me levar para casa. Levou uma hora e chegamos a andar na contramão em alguns trechos da Lagoa para chegar ao Rebouças, mas uma vez lá, o resto foi mole. O Rebouças não estava cheio de carros na direção Centro (embora, na direção Lagoa, estivesse tudo parado), o Rio Comprido estava seco e não precisei nadar até a porta do meu prédio. Os livros na minha mochila ficaram molhados, mas não houve qualquer grande prejuízo. E já que todos se salvaram, comecei naquela hora mesmo a escrever a segunda versão do meu romance. Assim terminou minha pequena odisseia para voltar ao lar. Ufa!
quinta-feira, 4 de março de 2010
Das alegrias de se ter um cachorro chamado Wilson - 2
Tem dias em que alguns acontecimentos te derrubam. Te prometem uma coisa boa que não se materializa e você fica temporariamente sem chão. Mas ao levar o Wilson para passear na rua ontem à noite, a felicidade dele por estar passeando me animou. Ele fica contente com as menores coisas. Uma coçadinha na barriga, correr no pátio, ficar sentado do meu lado na cozinha enquanto preparo o jantar, correr atrás dos pássaros que pousam aqui no pátio. Toda vez que o chamo, ele vem feliz da vida. E quando acordo, lá está ele, parado do lado da cama, o focinho dele na minha cara, satisfeito da vida. Para ele não tem tempo ruim. Eu amo o meu cão.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Das alegrias de se ter um cachorro chamado Wilson

Não há nada como ser acordada bem cedo de manhã quando você foi dormir no meio da madrugada pelo seu cachorro grande e preto que resolveu que seria muito divertido mastigar seu braço como se ele fosse um daqueles brinquedos de morder que as pessoas dão para seus cachorros. E não adianta dar uma bronca nele porque ele trata qualquer bronca como se fosse uma brincadeira. Aí só me resta o recurso de virar para o lado, esconder o braço debaixo das cobertas e xingá-lo de "cachorro". Eu adoro meu cão.
terça-feira, 2 de março de 2010
Linguagem

De novo, mais um trecho de Nada a Dizer, de Elvira Vigna.
Falávamos e falávamos outra vez, num bordado que repegava o que já havia sido dito e redito muitas vezes, para que fosse dito outra vez. Na esperança de que o desvio de uma vírgula, de uma nova palavra, nos levasse além da linguagem. A linguagem sendo o espaço construído em meio a um vazio, construído para que tentássemos entender, quadricular, estruturar esse vazio que estava, contudo, sempre do lado de fora dessa construção. Tentávamos apreender o que a linguagem não apreende, e o fazíamos através da linguagem, nosso único quarto, tão exíguo quanto o de um motel.
Falávamos e falávamos outra vez, num bordado que repegava o que já havia sido dito e redito muitas vezes, para que fosse dito outra vez. Na esperança de que o desvio de uma vírgula, de uma nova palavra, nos levasse além da linguagem. A linguagem sendo o espaço construído em meio a um vazio, construído para que tentássemos entender, quadricular, estruturar esse vazio que estava, contudo, sempre do lado de fora dessa construção. Tentávamos apreender o que a linguagem não apreende, e o fazíamos através da linguagem, nosso único quarto, tão exíguo quanto o de um motel.
segunda-feira, 1 de março de 2010
O círculo que nunca se fecha
Às vezes, o perigo de ler livros que você adora é que esses outros livros servem para mostrar o quanto seu texto está aquém de suas intenções. Se o que você escreve não mexe com os outros, então de que adianta escrever? Meu lance nunca foi ser original. Escrevo sobre morte e famílias, dois temas absolutamente universais. Todo mundo escreve sobre isso. O que me interessa, na verdade, é escrever algo que cause um impacto, que tenha algum peso emocional, que provoque incômodo. A começar em mim mesma. Pode parecer estranho, mas perceber que você fez besteira pode ser uma coisa boa. Agora sei que terei de ir mais fundo na segunda versão do romance. E sei melhor o que quero atingir. Vamos em frente.
Tudo a dizer
Terminei o livro da Elvira Vigna, Nada a Dizer. Em quatro dias. É um recorde para mim depois que comecei a trabalhar. Quando estudava e tinha todo o tempo do mundo, era mole terminar um livro de um dia para o outro. Agora eu levo pelo menos um mês. E vou dizer e repetir para quem quiser ouvir (e mesmo para quem não quiser) que é a melhor coisa que leio em muito tempo. Faz séculos que não tenho uma reação tão visceral a um texto. Saiam correndo, comprem, leiam. Não é experimental, não tem firulas, truques, malabarismos. Mas ele vai direto na ferida e isso é o genial da narrativa para mim. Ela desmonta um casamento, o marido, a narradora e os coloca a nu. Maravilhoso.
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