Durante toda a vida eu quis ter diários. Eu achava que seria
interessante ter um registro do meu cotidiano. Mas toda vez que eu
tentava, imediatamente me vinha um certo desconforto. O que eu tenho de
tão interessante na minha vida que vale a pena registrar? Minha
conclusão: porra nenhuma. E no rastro de Anne Frank, era meio inevitável
desconfiar que o que se escrevia era não para consumo próprio, mas para
alguma geração futura e isso era um pouco de megalomania demais para
mim. O blog tem esse lance de ser um diário a céu aberto. Foi o Ramones
que me meteu nessa, me aconselhou a ter um blog. E acabei gostando,
mesmo desconfiando que só haja uma meia dúzia de pessoas me lendo. Não
tenho trinta mil amigos. Não sou extrovertida e nem tenho uma vida
social intensa. Nunca soube me promover, o que obviamente ajuda a
explicar porque passei anos sem me tocar que eu podia tentar publicar os
poucos contos que considero decentes. Passo a semana em casa,
trabalhando sozinha e saio nos fins de semana para escrever. As pessoas
que mais vejo são os vendedores do segundo andar da Travessa. É uma vida
praticamente monástica. E agora tenho essa janelinha que abro para
pessoas que não faço ideia de quem são. Tem dias em que isso me bate
como muito estranho. Mas, sei lá, de uns tempos pra cá a gente meio que
vem vivendo a vida particular meio que no meio da rua mesmo. Falamos ao
celular coisas super íntimas no meio da rua. Uma das conversas mais
íntimas da minha vida aconteceu no meio da Travessa, falando ao celular
com uma grande amiga que mora nos EUA e que soube de uma situação
difícil que eu estava passando. Então, porque não discutir coisas minhas
em um blog? Confiro ocasionalmente quantas visitas recebo, que passaram
das cinco mil de acordo com o medidor que instalei. Não sei se isso é
verdadeiro. E não sei quem me visita. Sigo achando isso estranho, mas
tudo bem, todo mundo pode entrar. A casa é sua.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Aniversário
Contagem regressiva para o aniversário de 10 anos de 11 de setembro. O dia que mudou o mundo, como anunciam os comerciais da CNN da cobertura especial. Há documentários para todo lado e de todos os tipos. Sinceramente não sei se esse dia mudou o mundo. Há dez anos eu estava fechando a revisão de um filme para o Festival do Rio quando resolvi fazer uma pausa e ligar a TV. Sigo sentada na frente da TV até hoje, traduzindo filmes, aguardando o próximo Festival do Rio. O meu mundo com certeza segue sendo o mesmo. Tudo o que vejo à minha volta não parece ter mudado muito. Não realmente. O que ficou foi o fascínio por esse dia e essas imagens, todas as histórias contadas sobre esse dia. Já usei essas imagens no meu primeiro romance, como uma metáfora. Alguns escritores já tentaram escrever romances sobre esse dia, com que sucesso eu não sei porque não li nenhum deles até hoje. Mas eu nunca busquei entender esse dia, apenas minha fascinação com o que houve, a maneira como cada um conta sua versão dos fatos. As narrativas, as narrativas me interessam, sempre.
Pequenas descobertas
Como descrever a sensação que te dá quando você volta para casa depois de um dia muito bom na Travessa? Sua cabeça não para de funcionar só porque você fechou o caderno. O processo de pensar o romance segue enquanto você olha a Lagoa da janela do táxi. Saio da livraria para o frio da noite, feliz, quase exultante, essa energia me acompanha até em casa. Há uma necessidade de expansão. Você quer ligar para alguém, contar as pequenas descobertas que fez durante o dia, só que para quem você pode ligar à meia-noite que não vá te xingar (e com razão)? Acaba sobrando para o blog e para as paredes de onde fico quicando até acabar minha bateria e eu desmontar na cama, em geral de madrugada. E é incrível o quanto já consegui avançar nesse fim de semana. Escrevi mais uma cena hoje e daí só falta uma para fechar o quarteto necessário. E cheguei no meio do romance. O negócio agora é ver onde entram as cenas novas. Ver qual a última cena nova que tem pra escrever. Ainda não sei responder se a estrutura atual funciona para alguém que não conhece a história toda como eu. Mas eu gosto de ver os detalhes que mudam de versão para versão, coisas que eu não programei, mas que simplesmente apareceram no texto.
Sábado que vem vou para a Bienal ver Elvira Vigna no Café Literário. Meu dia na Travessa terá que ficar para a sexta ou para o domingo, ainda não decidi. Também queria ir na quarta, mas desconfio que não vai dar. Tudo vai depender do que acontecer na segunda e na terça. O trabalho precisa ter prioridade.
domingo, 4 de setembro de 2011
Cão Mistério e Segredinho
O único grande problema de ter cães adotados, especialmente cães que foram resgatados da rua, é que você não sabe nada do histórico do cachorro. Eu tinha me acostumado a ter cães que eu via nascer e acompanhava pela vida toda. De repente, eu tinha de levar um cachorro de quem não sabia nada ao veterinário. Daí, minha amiga que me ajudou a levar a cachorrada ao veterinário decretou, Wilson e Zequinha eram o Cão Mistério e Segredinho. E eu na hora imaginei os dois como uma dupla de super-heróis, com máscaras e capas e botinhas nas patas. Wilson usaria seu peso como arma e pularia nos criminosos e pisaria nos seus pés. E a Zequinha, com extensa experiência em meter as garras em mim, saltaria no ar e ao estilo Wolverine, faria os malfeitores em retalhos. E depois, claro, viriam receber um biscoitinho de mim e voltariam a mastigar o edredom na minha cama. É a vida de quem divide sua casa com quadrúpedes.
Filhos de quatro patas
Hoje tive de amanhecer no veterinário porque a Zequinha começou a reclamar de uma dor misteriosa. E descobri que consultório de veterinário no sábado é que nem fila de hospital público. Todos os donos de animais aproveitam o dia de folga para levar os filhos peludos. E, claro, demora uma eternidade. Quando finalmente a Zequinha foi atendida, a dor tinha aparentemente sumido e estava tudo normal. Mas já que eu tinha levado tanto ela quanto o Wilson (já que vi que não seria fácil sair de casa sem carregar ele junto) ao veterinário, vacinei os dois e cortei as longas garras que eles tinham nos pés. Acabou aquela história de viver arranhada. A volta foi exasperante. Descobri que aquele clichê dos cachorros enrolarem as guias em volta das pernas do dono acontece com uma rapidez estonteante e de repente você está no meio da rua, enrolada e as pessoas olhando para você como se você fosse maluca. Quase fui derrubada umas três vezes. E naturalmente, para cada poste ou obstáculo no caminho, cada um queria ir numa direção diferente. Cheguei em casa querendo matar os dois, tendo sido praticamente arrastada todo o caminho do consultório até meu prédio. Resultado: cheguei super tarde na livraria e cansada de tanto ter de puxar as coleiras. E apesar disso, foi um dia surpreendentemente produtivo. De repente, surgiram duas cenas novas que se encaixam perfeitamente com o que já estava escrito. Nem parece que passei cinco meses com esse texto na gaveta. Amanhã, em função do tempo perdido hoje, vou voltar à livraria e ver o que pinta. Não sei se vou passar o dia inteiro, mas eu queria tirar um pouco do atraso porque saí da Travessa meio frustrada por ter tido tão pouco tempo para trabalhar. Mas desconfio que esse será o último domingo por algum tempo. Tenho de engrenar nas traduções para o festival e isso vai acontecer a partir da segunda. O que a gente não faz por dinheiro.
sábado, 3 de setembro de 2011
Murmúrios
Só de saber que amanhã estarei na livraria, minha cabeça já começa a se soltar, a antecipar o trabalho de amanhã. Começa uma espécie de murmúrio bem baixinho, as rodinhas querendo gerar palavras, mas como estou apenas no trabalho de revisão, é meio como se minha cabeça quisesse sair voando, mas não houvesse vento suficiente. Já na semana passada, apesar de só poder dedicar só um pedacinho do dia à revsão porque eu precisava dar prioridade ao trabalho, algumas coisas já ficaram claras para mim. Talvez saia uma cena nova, não sei. Sinto que há mais para ser dito. E se sair uma cena, mais três terão de ser escritas. Fico feliz em voltar a esses personagens, perceber que ainda os conheço bem, seus hábitos, sua dicção. A separação de cinco meses só reforçou minha visão deles. O que é preciso garantir nesta fase é que o texto reflita de uma forma verdadeira quem eles são e o que fariam. E isso vai ajudar em muitas coisas. O sono já se faz sentir. Eu vou aproveitar e me meter debaixo das cobertas quentinhas.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Mortinha
Cansei. Esta semana foi fogo. Entreguei dois filmes e três episódios de duas séries. Acabei de fazer minha última entrega da semana e tudo o que eu quero neste exato momento é poder jantar, ver o programa que baixei da Internet e desmaiar na cama depois de Roque Santeiro. Amanhã, escrevemos.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Monstratona
As preparações para o Festival do Rio começaram. Recebi meu primeiro filme para traduzir. Parece meio tarde, eu sei, mas este ano, por conta do Rock in Rio (eu não vou!), o Fest-Rio foi adiado para o início de outubro. O que significa que ele mal vai terminar e dois dias depois vai começar a Mostra de São Paulo, em sua época regulamentar. Para nós que fazemos os dois festivais, vai ser super puxado porque normalmente o intervalo entre os dois festivais é de duas semanas. Este será o ano da Monstratona. Normalmente digo aos meus clientes tradicionais que vou sumir durante a época dos festivais. Este ano, outubro vai ser um buraco negro. Vou entrar nessa e só voltarei a ser vista em novembro. Mas o legal é que este ano poderei ficar hospedada parte do tempo com uma amiga em Sampa. Fiquei com ela apenas uns poucos dias na minha primeira Mostra e foi super. Este ano quero ir no Mercado Municipal e na feira que tem nos fins de semana na Liberdade. E tenho de pegar leve nas minhas visitas à Livraria Cultura. Ano passado eu carreguei quilos de livros de volta pro Rio. Foi a primeira vez em que paguei por excesso de peso. E olha que eu vou de armas e bagagem para lá. É laptop, câmera (claro), celular, MP4, todos os carregadores, fones de ouvido e outros acessórios, praticamente toda a minha roupa, e meus dois pares de tênis (eu só ando de tênis). As pessoas no aeroporto devem achar que estou de mudança. O que não é exatamente um exagero. Por duas semanas de cada ano, eu me mudo para São Paulo. O bom é que eu finalmente achei a mochila perfeita para mim. Ela é espaçosa o bastante para caber toda a minha tralha habitual e em outro compartimento cabe meu laptop e acessórios. Então vai acabar aquela história de carregar duas mochilas para os cinemas. Vou levar uma mochila vazia para São Paulo só por precaução, porque ano passado comprei várias coisas que precisei despachar como bagagem e como não tinha onde levar, precisei comprar uma mochila nova. Achei que seria uma boa mochila de laptop, acabou não sendo e a boa mochila de laptop eu achei aqui no Ed. Avenida Central, custando metade do preço. De todo modo, o espírito do Festival já baixou entre os audazes tacadores de legenda. Já estamos trocando e-mails meio loucos. Tudo começa de forma inocente com um e-mail perfeitamente normal procurando um técnico de computador. Aí o pessoal não consegue resistir a fazer comentários engraçadinhos sobre o primeiro e-mail e e aí entra mais gente na roda e quando você vê, os e-mails viraram uma piração completa. Para se ter uma noção, já tivemos a estreia de novas entidades espirituais. Depois do Deus Branco, temos o São Jorge Abóbora e o Diabo Verde (que atenta os legendistas e os faz cair em pecado). Mal posso esperar pelo primeiro chope e a reunião do leilão de sessões. A Monstratona nos aguarda.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A dança dos personagens
Fiz uma coisa um pouco diferente este fim de semana. Eu tinha muita coisa a fazer em muito pouco tempo e achei que se eu saísse de casa para trabalhar, isso me daria um maior foco. Os imprevistos da semana que passou bagunçaram meus prazos e eu precisei recuperar o tempo perdido. E sair de casa, mesmo que para trabalhar, me daria algum alívio depois de passar a semana olhando para essas mesmas paredes. Então lá fui eu para a Travessa, me apossei da mesa mais próxima da única tomada no café e mandei ver. E tudo correu tão bem que nos dois dias eu tive um tempinho para revisar o romance em progresso. E aí conversei um pouquinho com um dos vendedores depois de jantar hoje sobre um filme que admiro muito por sua estrutura incomum, O Violino Vermelho. E comecei a pensar sobre uma dúvida que tenho sobre a estrutura do romance. Eu alternei as cenas de cada um dos personagens, então você lê todas as histórias juntas ao mesmo tempo. Não foi assim que eu escrevi o romance, claro. Eu escrevi cada história de uma vez e depois montei a estrutura alternante. Uma cena do Bernardo, uma da Betina, uma da Marisa, uma do Adriano e voltamos ao Bernardo e assim por diante, meio como aquela música Dó, Ré, Mi, de A Noviça Rebelde. O que me preocupa é se essa alternância não torna a coisa um pouco confusa para quem está lendo. Eu sou a pior pessoa para avaliar isso, conheço todas as variações da história. O que me ocorreu hoje ao pensar no Violino Vermelho foi voltar à narrativa em blocos inteiriços, do jeito que eu escrevi, e na passagem entre um bloco e outro, as cenas das mães, formando uma espécie de espinha dorsal do romance como ocorre no filme, em que a leitura do tarô e o leilão do violino formam essa espinha dorsal. Assim eu teria garantido que o leitor entenderia minha intenção. Só vou ter uma resposta para essa dúvida quando botar o romance na mão de alguém que não conhece a história. Pelo menos é bom saber que tenho uma alternativa se a dança dos personagens não der certo. Vou desencavar meu vídeo do filme para estudá-lo.
domingo, 28 de agosto de 2011
Autobiografia ao contrário
Acho que não tem uma FLIP ou evento literário a que eu compareça em que uma criatura qualquer deixe de perguntar ao escritor no palco o quanto tem de autobiografia no livro, especialmente se ele é narrado em primeira pessoa. É uma pergunta tão previsível quanto a eterna "Você está traduzindo o filme na hora?" que ouço pelo menos uma vez por festival de cinema. Já falei sobre isso aqui algumas vezes. O escritor é como um ator. Ele não é um bandido (ou médico ou santo ou violinista), ele só interpreta um na TV. Por exemplo, no meu primeiro romance tenho um irmão suicida, um pai que abandona a família, entre outras coisas. Todos na minha família estão vivos e bem, meu pai não largou minha mãe quando éramos pequenos, ninguém tem pensamentos de suicídio, nada disso é verdade. Mas acontece que comigo eu escrevo sobre certas coisas e elas acontecem depois. No primeiro romance, a irmã precisa dispor dos pertences do irmão morto. Enquanto eu escrevia o romance, minha avó morreu un tanto subitamente e tempos depois me vi no quarto dela, selecionando objetos dela para ter de lembrança. A sensação de déjà vu foi fortíssima. Agora, no romance atual está ocorrendo algo semelhante. Escrevi sobre determinados eventos pelos quais nunca tinha passado, foram coisas que determinei logicamente porque encaixavam na trama e, tempos depois, eu me vejo cara a cara com a mesma situação na vida real. Muito, muito estranho. É como se estivesse escrevendo minha autobiografia ao contrário. Talvez se eu escrevesse um romance sobre um escritor famoso e premiado isso se torne verdadeiro para mim também. Não custa tentar. Em tempo, voltei para o primeiro romance em progresso e realmente o tempo que passei longe dele está me permitindo ver algumas coisas mais claramente, como uma cena que soa como se fosse de outra personagem. O que está pegando é o tom, que está informal demais e irrevente. Esta personagem nunca é irreverente quando fala do pai. Tenho de achar outra maneira de passar as mesmas informações, que são importantes para entender a relação dessa personagem com o pai. Também está mais fácil detectar as pequenas incosistências entre as versões dos personagens e que não foram criadas de propósito, fui eu que não lembrava dos detalhes entre uma história e outra. Depois percebi que isso só reforçava o efeito que eu queria. Se a estrutura desconjuntada vai funcionar para um leitor que não conhece a história ou não, ainda não dá pra saber. Obviamente, eu conheço a história bem demais para poder avaliar. Acho que vou dormir daqui a pouco porque amanhã tenho mais um dia de trabalho e quero estar bem descansada.
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