sábado, 27 de agosto de 2011

A melhor novela

Esta semana, fora Roque Santeiro, a melhor novela na TV tem sido a revolta na Líbia. A tomada do QG do Kadafi, a libertação dos jornalistas mantidos presos no Hotel Rixos, a briga pelo aeroporto, o detalhe inusitado da descoberta do álbum de fotos da Condoleezza Rice nos bunkers do Kadafi. Ninguém sabe o que vai acontecer a seguir e por isso passo os dias grudada na CNN, vendo os jornalistas se meterem em situações incríveis. Essa gente realmente tem que ter coragem. Com todo mundo em volta atirando pra cima ou pra cima de você, a chance de você se ferir ou morrer é real. Essa novela tem perigo, suspense, vilão, mocinhos e uma história que ninguém sabe no que vai dar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A queda que houve

Hoje eu dei de cara com o que acontece com uma pessoa quando ela se torna verdeiramente frágil. A queda que não tinha acontecido aconteceu hoje. Corrida para o hospital, pontos, tomografia, médicos. Complicado. A distância entre ser velho e ser frágil pode ser muito curta. Ainda estou tentando absorver o que houve.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Glamour zero

Os americanos resolveram pegar Prime Suspect, a fantástica série policial com Helen Mirren, e refazer a série do jeito deles. Vi um trailer outro dia num site e não fiquei muito entusiasmada. Tenho visto muitas séries inglesas de uns tempos pra cá e, sinceramente, acho que elas ganham da maioria das séries americanas. Pra começo de conversa, os ingleses são especialistas nas séries policiais e de mistério. Segundo, os atores são imbatíveis. E três, eles não estão interessados em glamour. Por exemplo, no Prime Suspect original, Helen Mirren tinha por volta de 47 anos. Ela tinha uma cara cansada, era uma pessoa às vezes desagradável e logo no primeiro episódio ela se aproveita da morte de um colega para assumir a investigação que ele chefiava, o que foi eticamente meio duvidoso. E ela faz de tudo para levar a investigação até o final. Os sets são os mais prosaicos possíveis, tem aquele aspecto de um lugar usado há muito tempo e meio desgastado, os policiais têm cara de gente normal, ninguém é bonito. A investigação é feita de pesquisas chatas e repetitivas, longas esperas, e o instinto infalível da Jane Tennison (Helen Mirren) para achar o culpado. E isso é muito comum em séries inglesas. O protagonista não é jovem e lindo, musculoso. Aliás, a grande maioria dos detetives deles são pessoas de 50 para cima. Um exemplo recente é o Luther, um policial que tem um instinto infalível para achar criminosos, mas separado da mulher, ele mora em um apartamento que é um buraco, sempre tem a barba por fazer e parece viver à beira de algum tipo de colapso mental. Glamour zero.
Agora vejamos as séries americanas. Todo mundo é lindo, jovem, musculoso, os sets são estilosos e tem aquela edição ágil de videoclipe. E nas séries de TV aberta, tudo é diluído em 22 episódios quando os ingleses costumam concentrar seus dramas em temporadas de seis, dez episódios e eles nunca têm medo de ir até as últimas consequências de uma trama. Protagonistas morrem de verdade. Novos atores entram para tomar o lugar do ator que partiu e ninguém pensa duas vezes em fazer isso. Por isso e outras coisas, acabam sendo séries mais densas e muitas vezes inovadoras. Quem teria inventado uma série sobre um lobisomem, um vampiro e uma fantasma que são amigos e dividem uma casa? Talvez seja o fato de eles trabalharem com menos dinheiro e bem longe do esquema de Hollywood. Talvez seja uma influência de toda uma longa tradição literária no país e que tem Shakespeare como grande ícone. Não sei direito. Mas ao ver a versão glamurizada de Prime Suspect, fiquei meio desanimada, achando que os produtores da série não tinham entendido qual era o sentido da série original, que era oferecer uma visão mais realista da investigação policial e do papel da mulher em uma força policial machista.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Coragem

Estou desde cedo ligada na CNN, vendo as incríveis imagens dos rebeldes na Líbia entrando no complexo do Kadafi e carregando armas, quadros, munição, uniformes dos soldados. Você vê rebeldes atirando no ar, crianças passando, é uma loucura. E no meio disso a repórter Sara Sidner, que chegou a Tripoli junto com os rebeldes e por isso estão deixando ela entrar e mostrar tudo. A mulher sabe se meter numa roubada. Quando terroristas tomaram aquele hotel em Mumbai, ela estava na frente do hotel, debaixo de fogo dos terroristas, por horas a fio, fazendo a reportagem. Agora cá está ela em mais uma roubada, no meio de um monte de gente atirando para o ar (o que é perigoso para caramba), e dá para ver que ela está assustada, mas segue com o trabalho dela. Você precisa mesmo ter coragem para fazer esse trabalho. Incrível.

O vazio no ar

Já começaram os especiais sobre 11 de setembro. Não é para menos. Faz dez anos da data mais absoluta da vida de todos nós. Nada se compara com aquilo que aconteceu naquele dia. Nem outros atentados, nem guerras, nem revoltas que acontecem diante de nossos olhos nos noticiários da TV. Aquele foi um dia de uma violência tal que até hoje estamos tentando entender o que houve. Multiplicam-se as narrativas sobre aquele dia. Mesmo que sejam só as das pessoas que estavam na frente da TV, vendo tudo acontecer sem entender nada. A narrativa é nosso meio de tentar entender as coisas. Lembro de um documentário fascinante que assisti sobre a famosa foto do homem que caía do WTC e das pessoas que tentaram descobrir a identidade desse homem. Por extensão, o documentário também entrevistou os parentes de pessoas que se jogaram das torres. E cada uma dessas pessoas tentava entender o que foram os últimos momentos de seus entes queridos simplesmente porque eles não tinham como contar essa história até o fim. E a fascinação com o voo 93 que caiu na Pensilvânia deriva da mesma coisa, de não podermos contar até o fim o que houve nesse avião. As lacunas, os espaços em branco são sempre irresistíveis. Eu, que morei em Nova York quando o WTC ainda era muito novo, estive lá em cima, toda vez que vejo a silhueta de Manhattan, ainda sinto falta daquelas torres, sinto aquele vazio no ar. Faz dez anos, mas ainda vamos sentir essa ausência por muito tempo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Água

Eu tinha mandado meu romance para um concurso literário e o resultado saiu hoje. Água. Não será agora que vou virar uma escritora premiada, rica e famosa. Vai ter que ficar para a próxima. O que vai ser esta semana, já que vou despachar o bicho para mais outro concurso. Se a gente insistir, quem sabe um dia não sai?

Andando na chuva

Terminei. Acordei hoje muito inquieta e resolvi voltar para a Travessa para fechar a primeira versão do romance. Faltava muito pouco e eu sabia que não ia conseguir trabalhar direito essa semana faltando apenas quatro cenas para fechar o texto. O texto ficou mais curto em comparação com outros textos meus, mas inevitavelmente sei que vou encher o romance um pouco mais quando for escrever a segunda versão, preencher todos os claros que ficaram. Levei cinco meses nesse processo e foi muito bom. Agora vou voltar a O círculo que nunca se fecha, fazer o que espero sejam ajustes finais, o que deve me levar até o final do ano já que o mês de outubro vai ser todo dedicado aos dois festivais de cinema deste ano. Geralmente o Fest-Rio e a Monstra ocorrem com um intervalo de duas semanas entre o fim de um e o começo do outro. Este ano ele será de dois dias por conta do Rock in Rio. Daí este ano teremos a Monstratona. Provavelmente vou precisar do mês de novembro para me recuperar.
Terminei o texto poucos minutos antes da Travessa fechar, fiz um brinde a mim mesma com minha Coca-Cola, depois andei um pouco na rua debaixo da chuva, me sentindo leve e feliz (e entendendo o Gene Kelly perfeitamente) antes de chamar um táxi para voltar para casa. Sábado que vem, voltamos alegremente ao romance em progresso 1.

domingo, 21 de agosto de 2011

Cada um com sua versão

Chegando lá. Sinto-me impaciente para terminar a primeira versão do romance em progresso 2. Claro que ainda tem muita coisa para escrever, mas agora quem está precisando de distância é esse romance. E estou doida para voltar ao romance em progresso 1, O círculo que nunca se fecha para os íntimos. Assisti a um programa da BBC que baixei da internet e que me deu várias ideias para incorporar ao romance. Acho que a essa altura já posso voltar para ele e acertar o que está faltando. Já achei uma solução para a parte da segunda personagem que não vai me exigir arrancar tudo e reescrever páginas e mais páginas. Quem me deu a ideia foi um escritor irlandês chamado Colm Toibin. Já li um romance dele que achei genial e li vários contos dele. Também já tenho uma solução para mexer na vida amorosa de outro personagem para que não fique como a de outros personagens. Também tenho mais detalhes para acrescentar no pedaço do quarto personagem. E sei que vou ter que rever o ordenamento das cenas da terceira personagem. Até agora, o que eu mais gosto desse romance é que penso ter conseguido equilibrar os personagens para que não sejam só de um jeito. Todos eles têm várias facetas, nem todas lisonjeiras, e me interessa explorar isso. Sem falar que tem o grande barato de eu estar explorando diferentes versões de uma mesma história, então não preciso ter o mesmo cuidado que eu teria em um outro romance de garantir que os detalhes batem. Cada um deles tem sua versão do que houve, mesmo que sejam versões muito diferentes. Brincar com isso me interessa. E esse é meu motivo para ter o romance em primeiro lugar. Em geral, eu costumo começar com uma história, mas este começou com a estrutura, quase como uma brincadeira. E se em vez de ir para a direita, a pessoa tivesse ido para a esquerda? O que teria acontecido? Para a direita ela poderia ter encontrado o amor da sua vida. Para a esquerda, ela poderia ter sido atropelada. Levei um tempão para entender como eu poderia fazer essa ideia dar certo. Acabei me baseando em um evento que ocorre durante uma semana na vida desses personagens e, com base nas decisões desses personagens durante essa semana, a história vai para um lado ou para o outro e o romance é o resultado dessas decisões. Cada um toma uma decisão e cada um tem uma trajetória um pouco diferente. Então, na prática, estou contando quatro histórias. O controle disso tudo é complicado, mas acho que o resultado vale a pena. Talvez eu já possa começar semana que vem. Vai depender de como render meu dia na Travessa no próximo sábado.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Meu quarto de escritor

Adoro quando falam que o trabalho do escritor é solitário. É meio inevitável sorrir quando faço isso toda semana no meio de uma livraria cheia de gente. Não duvido que a solidão seja necessária para escrever. Mas não acho que ela seja necessária para mim. Desde que comecei a escrever, eu tinha o hábito de escrever no meio da sala de aula porque estava de saco cheio. Isso tinha a vantagem de fazer parecer que eu estava interessada e adiantava o que eu estava escrevendo na época. Na época em que eu trabalhava numa editora, também escrevia no restaurante onde almoçava todo dia. Parei com isso um pouco porque no meu próximo emprego eu tinha companhia para almoçar, mas eu nunca parei de escrever em público. Eu escrevia muito em casa também, sentada na minha cama, ao som da MTV, mas depois que comecei a trabalhar em casa, ficou complicado ter concentração para escrever no mesmo lugar em que eu trabalhava. E aí eu descobri o café da extinta Letras e Expressões em Ipanema. Meu hábito era ir lá toda vez que me sentia muito inquieta em casa. Passava umas poucas horas lá, escrevendo, comprava umas revistas e voltava para casa mais sossegada para continuar a trabalhar. Quando a Travessona de Ipanema abriu, eu me transferi para o café de lá e foi lá que encontrei o lugar perfeito para escrever. Os vendedores do segundo andar brincam comigo que eu devia fazer a reserva da minha mesa antes de vir para garantir que ela esteja vazia.
Não faço questão de silêncio, mas preciso sim de concentração. Antigamente era na cara e na coragem. Hoje em dia tenho meu MP4 player com uma vasta seleção de músicas pop que me fornece concentração instantânea. Acho que, na prática, a única solidão de que preciso é de estar sozinha dentro da minha cabeça. Eu curto o movimento, gosto de observar as pessoas, de conversar com os vendedores. O jornal The Guardian tinha aquela série de quartos de escritores, infelizmente já encerrada. O meu quarto é uma livraria inteira.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Do valor educativo de dar de cara na parede

Li a coluna mais recente do Michel Laub para o blog da Companhia das Letras. E fiquei pensando nessa coisa de ter amigos escritores criticando o seu trabalho. Claro que pode ser uma saia justa se você não gosta do texto do amigo. Para mim, algumas das melhores críticas que recebi foram de amigos e arrasaram com o que eu tinha escrito. Foi durante o processo de escrever o primeiro romance. Eu o dei para essas duas pessoas e sinceramente esperava receber elogios, pois ambas já tinham elogiado meu texto anteriormente. E aí vieram as críticas negativas e foi como levar duas cacetadas na cabeça. Fortes, arrasadoras, definitivas. É mole quando alguém vira para você e diz que você esqueceu uma vírgula ou errou um tempo verbal. O mais difícil é te dizerem que você fez merda e ter de reconhecer que isso é verdade. É importante ressaltar que essas críticas vieram de amigos, não necessariamente íntimos, mas que eu sabia serem sinceros e que me diziam essas coisas com a real intenção de me ajudar. A validade da crítica realmente depende da origem. E acho que foi a partir deste momento em que realmente passei a acreditar no valor educativo de dar com a cara na parede. Foi um baque receber essas críticas e fiquei mal por uns dias. Mas depois desses dias, vi que elas eram corretas, respirei fundo, joguei fora dois terços do romance e comecei de novo. E o romance ficou muito melhor por conta disso. Essa é a diferença entre simplesmente meter o pau e fazer uma crítica genuína. Eu sofri com as duas coisas e aprendi a diferenciar entre elas. E em função disso, acho que hoje tenho uma visão mais objetiva do meu texto, do que dá certo e do que dá errado do que tinha antes.
Até o final do ano acho que terei de colocar meu romance em progresso na mão de alguns amigos para receber criticas. Vamos ver no que dá então. Essa é uma espera ainda pior que aguardar um verdicto das editoras. O romance funciona ou não? Os personagens vivem ou não? A estrutura funciona ou deixa todo mundo perdido? As pessoas entendem a proposta? É o que veremos, provavelmente em 2012, porque ninguém nunca lê essas coisas em um ou dois dias comigo. Todo mundo leva uma vida inteira. Quando eu tiver notícias, eu conto.