segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Obstáculos

Obstáculos. Cheguei à conclusão ontem que meu personagem precisa de mais obstáculos. Eu passei de uma novela em que eu resolvia tudo com três discussões e meia dúzia de páginas para um romance em que não dá para fazer a mesma coisa. Eu já violo a primeira regra dos romances, pois os meus são intimistas e com meia dúzia de personagens, se tanto, quando originalmente romances deviam ser vastos, com elencos do tamanho de um blockbuster de Hollywood e cobrir décadas de história. Eu seria incapaz de escrever algo assim. Mas como eu preciso encaminhar a história para o fim e deixar o personagem na maior merda antes de, no final, redimi-lo um pouco, preciso criar mais alguns obstáculos para ele pois percebi que dei a ele tudo o que ele queria. Agora preciso tirar um pouco dessa facilidade. E também sumi com uma personagem importante. O personagem principal consegue o que quer dela e aí ela some. Correções de rumo. E digitar este romance em progresso vai dar um trabalhão já que até agora a maioria dele está me saindo em inglês e vou ter de traduzir tudo na hora de digitar. Claro que traduzir a mim mesma é muito mais fácil pois é o mesmo processo de composição em inglês e português, exceto quando eu crio uma frase em um inglês muito específico e que levo séculos para verter. Sempre gosto desse processo de ir pensando o texto enquanto ele vai se escrevendo. Já estou sentindo que talvez seja melhor ir digitando este texto mais cedo em vez de mais tarde para já colocar ele na ordem certa. Depois eu decido.

A quase queda

Almocei com meu pai hoje. Não, não foi por causa do Dia dos Pais. Na verdade, esse foi o almoço por conta do meu aniversário que acabou sendo adiado porque ele não estava se sentindo bem. Meu pai é uma daquelas pessoas que envelheceu meio precocemente. Ou talvez o mais correto seja dizer que por ele estar com setenta e tantos, ele acredita que deva ser velho enquanto que minha mãe faz questão de não reconhecer que existe uma coisa chamada velhice não importando qual a sua idade. Desconfio que ela vai morrer sem nunca admitir que tem cabelos grisalhos. Só posso supor que ela os tem já que ela pinta o cabelo de louro desde antes de eu nascer (encontrar uma foto antiga dela poucos anos antes do meu nascimento com ela de cabelos castanhos como os meus foi uma descoberta monumental, não sei como ela não a queimou) e se eu tenho dois fios brancos de cabelo, ela tem de ter mais. De todo modo, quase um mês depois do meu aniversário, sentamos afinal para almoçar e eu devorei um prato monumental de tempura de camarão. Para não perder o hábito, fiquei admirando o prato de sashimi que chegou na mesa ao lado e lamentando não ter pedido ele também. Mas já era o final da refeição e saímos para nos despedir. Ele foi entrar no táxi, percebeu que eu não ia entrar nele (eu ia para a Travessa ali perto) e voltou-se para me dar um beijo. Só que ele perdeu o equilíbrio e quase caiu (meu pai vem sofrendo de problemas nas pernas nos últimos anos que afetam sua mobilidade). Tive de segurá-lo para evitar que ele se estatelasse na calçada. Mas deu tudo certo, ele me deu um beijo e entrou no táxi, voltou para casa. Eu segui meu caminho. E ao caminhar, refleti sobre esse estranho momento em que me vi mais forte fisicamente que meu pai, em que dei de cara com o fato de que ele se tornou uma pessoa frágil. Meu pai, o diplomata que viajou meio mundo, agora evita sair de casa porque andar se tornou muito penoso. Intelectualmente você sabe que vai ter de enfrentar momentos assim. É muito estranho quando eles aparecem de verdade. É meio como se fosse algo artificial. Como se alguém aparecesse com um roteiro e dissesse, olha, chegou a hora de... Tomara que eu não tenha de passar por isso com minha mãe por muito tempo ainda. Desconfio que ela só vai sossegar quando passar dos 100 anos. Tomara.

sábado, 13 de agosto de 2011

Sonâmbula

Outro sábado. Esse eu atravessei meio que de teimosa porque estava caindo de sono. A semana foi complicada e tive de abrir mão de muitas horas de sono para terminar alguns trabalhos pois de repente um programa inteiramente novo caiu no meu colo e, para variar, quando minha agenda complica, todo mundo resolve lembrar de mim, me pedindo traduções urgentes. Dormi pesadamente de sexta para sábado e mesmo assim ainda estava no déficit. Vou dormir bem esta noite e torcer para isso reestabelecer o equilíbrio.
Apesar de estar sonâmbula, alguma coisa boa apareceu hoje, mais uma vez, explorações do passado, o que me parece ser um bom caminho para este romance em progresso. A arqueologia é, afinal, meu assunto preferido. Originalmente, eu tinha pensado em não explorar a família neste romance. A novela original não tinha qualquer menção a pais ou mães ou irmãos. Só que ao esticar esse material, era meio inevitável eles aparecerem. Eu os coloquei todos no passado já que, no presente, o personagem principal se mantém afastado da família. Foi bom porque pude criar uma família diferente das outras que já criei. Mas, ao contrário de outros textos, a família não está no centro da história. O próximo texto também não terá a família no centro. Mas ainda é muito cedo para saber os detalhes do próximo romance em progresso. Não sei se vou poder escrever amanhã. Tenho de fechar um filme para um festival. Amanhã eu decido.

Princípios de arqueologia

Sempre gostei de arqueologia e dessa ideia que o que você deixa para trás diz muito sobre civilizações e povos. Essa foi a ideia que levei para meu primeiro romance (ou melhor dizendo, o primeiro que deu certo). Ela começou com a observação dos objetos que as pessoas tinham nas suas salas, suas estantes, as pequenas lembranças que as pessoas guardam. E alguns anos antes eu tinha visto uma amiga dizer que precisava separar as coisas do marido que tinha acabado de morrer. Na época, sei que não entendi o peso desse gesto. Depois me peguei pensando na minha amiga olhando os objetos do marido e o peso das lembranças que eles deviam carregar. Esse foi um dos pontos de partida do romance. O outro foi meu hábito de ir acumulando papéis, cartões de visitas, cartelas de aspirina e outros objetos nos bolsos do blazer que visto sempre que vou à rua. O Batman tem seu cinto de utilidades, eu tenho meu blazer. Volta e meia tenho de esvaziar os bolsos e jogar fora o excesso de papelório. E foi nesse gesto que me veio o primeiro parágrafo do romance, escrito no meio do café de um cinema durante um dos muitos festivais de cinema em que trabalhei. Seis anos depois, apesar de becos sem saídas, recuos, recomeços, finalmente terminei o romance e desde então venho buscando a publicação. Com sorte, terei uma resposta positiva este ano. Vamos cruzar os dedos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Arqueologia pessoal

No meu primeiro romance, a personagem central precisa revirar as coisas que o irmão morto deixou para trás e a partir disso faz uma tentativa de entender quem era esse irmão a partir de seus objetos pessoais. Curiosamente, uma poeta fala mais ou menos a mesma coisa em um artigo no The Guardian que saiu hoje. E o que ela fala bate muito com o que eu penso. O artigo pode ser encontrado aqui.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Um brilho diferente

Sempre gosto das horas em que consigo me surpreender com o texto. Fui assistir o Reinaldo Moraes falar na Biblioteca Nacional, depois catei um lugar para jantar. E enquanto jantava, dei seguimento a uma cena que comecei no sábado. E a cena que começou como uma coisa de repente deu uma virada e se transformou em outra coisa muito melhor que a direção original que eu tinha em mente. Não sei de onde surgem esses súbitos rasgos. É bom saber que eles são possíveis de vez em quando. Ainda mais porque não sou alguém que fica trabalhando muito a linguagem. Mas aí, de repente, sai uma cena que parece ter um brilho diferente e fico contente. É um dos prazeres de ser Clark Kent.

Lucy, I love you

Mais um momento clássico da Lucy.


domingo, 7 de agosto de 2011

Feliz aniversário, Lucy

A grande dama da comédia americana, Lucille Ball, nasceu há 100 anos em 6 de agosto de 1911. Ela foi uma pioneira de várias maneiras, tendo um dos sitcoms mais populares do país, criando uma produtora poderosa que nos anos 60 produziu Jornada nas Estrelas quando os produtores eram quase todos homens. E ela era simplesmente uma das comediantes mais engraçadas da TV americana. Ela não tinha medo de tentar nada para fazer graça. Eu assistia seu programa mais popular, I Love Lucy, todos os dias quando morava em Nova York nos anos 70. Todo mundo que já a assistiu tem sua cena preferida. A minha sempre será a deste clipe. Você nem precisa saber muito inglês para entender.


Meio mastro

Fui para a Travessa mais por teimosia do que necessariamente vontade e também por que não aguentava mais olhar para essas mesmas paredes aqui de casa. Eu tinha que sair. Cheguei na livraria a meio mastro e fui melhorando com o passar do dia. Antes de começar a escrever, passei na farmácia que tem ali perto e me abasteci de remédios para combater meu resfriado. Xarope, remédio para o nariz e para resfriados, pastilhas para a dor de garganta. Devidamente medicada, eu me voltei para meu labor literário. Decidi continuar os temas da semana passada e escavar o passado dos meus personagens. A função do passado, claro, é iluminar o presente. Há uns dez anos, durante um laboratório de roteiro, um roteirista americano disse que qualquer flashback tinha de ser orgânico. Ou seja, sua colocação tinha de parecer completamente natural. O que nem sempre é fácil. Já sei que me distanciei da minha rota natural para escrever esses flashbacks e quando digitar tudo, vou ter de remanejar as cenas para encontrar sua ordem correta, sua ordem "natural". Não importa, depois eu volto para o curso normal da história. Neste momento, as descobertas desses flashbacks são importantes para iluminar os personagens. E eu gosto desses momentos de iluminação. Amanhã volto ao batente. Pena, queria descansar, mas não vai dar. Talvez no fim de semana que vem.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Lerda e burra

Esta é uma daquelas semanas em que a expressão "thank God it's Friday" nunca foi mais verdadeira. Fui pega por um meio resfriado, passei a semana meio lerda e burra e sem saco para nada. Estou tomando remédio, mas é aquela coisa que só passar o dia debaixo das cobertas, dormindo, cura. E é curioso eu estar inquieta e impaciente (ainda mais com uma obra no vizinho fazendo barulho o dia inteiro) justo quando eu andava pensando o quanto a idade efetivamente pode te trazer uma maior tranquilidade. Tinha um artigo sobre isso em um dos vinte mil sites que eu olho durante a semana. Foi um susto quando afinal percebi que ter quarenta anos não era a mesma coisa que ter vinte anos e que eu de fato havia aprendido alguma coisa nesse meio tempo. E eu penso no que me disseram, que quando eu achasse o primeiro cabelo branco, eu iria ter um treco. Acontece que achei dois cabelos brancos nascendo bem ao lado da orelha há alguns meses. E ri com a descoberta. Achei engraçado. Desconfio que não vou pintar o cabelo quando a coisa ficar mais visível. Isso é porque venho lidando com essa questão no romance em progresso atual, o que se ganha e o que se perde quando de envelhece, ou melhor, se amadurece. Inevitável não passar muito tempo pensando nisso depois que se chega aos 40. Não tenho achado muito ruim até agora.