Não sou uma escritora que traça toda a trajetória do texto e dos personagens. Eu começo com uma premissa básica e depois saio inventando o resto. Daí parte do grande barato de escrever é o que eu descubro durante o processo, as coisas que você escreve e depois percebe que encaixam perfeitamente com algo que vai escrever mais adiante sem que isso tenha sido uma decisão consciente, sentir o surgimento das personalidades, das manias, defeitos, ver os personagens começarem a ficar de pé. De repente achar uma nova faceta, um novo aspecto do personagem que não me havia ocorrido antes é o que me faz sair saltitando de alegria da livraria, esse é um dos grandes barato de escrever.
sábado, 19 de dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Estas são as viagens
Há muitos anos, eu fui acolhida por um grupo de fãs de Jornada nas Estrelas. Eu era fã também e era legal encontrar pessoas com um interesse em comum. O que foi mais interessante sobre fazer parte desse grupo é que pudemos, por uma série de acasos, participar da tradução das várias séries de Jornada na VTI. E quem é o fã que não quer ter algo a ver com aquilo que adora? Obviamente, não podíamos ir para Hollywood, então fizemos aquilo que nos era possível: nos dedicarmos para que a tradução fosse a melhor possível. Montamos glossários, listas de títulos, revíamos as temporadas antes que fossem traduzidas para tentar ver quais os problemas que enfrentaríamos durante a tradução. Lembro-me de uma vez em que passei três dias ao telefone discutindo a tradução do nome de uma classe de nave espacial com uma amiga até chegarmos a uma solução. E depois descobrimos que esse tipo de nave nunca mais seria mencionado. Não tínhamos como controlar a escolha das vozes nem podíamos estar dentro do estúdio para toda santa gravação para evitar erros, então fizemos o que era possível, tentar garantir que a tradução tivesse a melhor qualidade que podíamos conseguir então. Fomos aprendendo com o tempo e, no final, minha vontade era voltar atrás e recomeçar tudo para consertar todos os erros que cometemos ao longo do caminho. No total, foi um trabalho que durou 16 anos, começando no início dos anos 90 e que foi até 2007. E quando eu fiz a revisão do último episódio da última temporada, eu sabia que tinha sido o fim de uma era. Foi o fim de um trabalho que fizemos com amor, dedicação e orgulho. Foi o fim de uma época da qual me lembro com grande afeto pois é o trabalho do qual eu mais me orgulho. É legal ver esse trabalho no ar de novo, agora no canal SciFi com a reprise dos episódios da Nova Geração. E em janeiro, outra série maravilhosa será reprisada de novo, Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, na minha opinião a melhor das séries depois da série clássica. Acho que vale a pena conferir.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Wilson, Wilson
Até a morte da Dax e Neguinho, meus cachorros vinham dessa dinastia que começou com Max e Samantha no início dos anos 90. Eu os vi nascer e crescer e, infelizmente, morrer. Dax, minha labrador paraguaia (porque não era uma labrador de puro sangue) foi um presente da Claudia e a exceção na minha matilha. E eu achei que seguiria assim indefinidamente, uma geração substituindo a outra. Adotar cachorros era uma coisa que eu tinha pensado em fazer algumas vezes, mas ao mesmo tempo eu não queria encher a casa de cachorros de novo. Para quem já teve seis, dois estava (e está) de bom tamanho. E tinha a incógnita de não saber a origem do animal, que manias, traumas ele podia ter. E aí chega na minha casa o Wilson, grande, preto, cheio de alegria de viver, que com prazer passaria o dia vendo carros e gente andando na rua. Quando eu pego na coleira dele, ele sai correndo para a porta e é um inferno fazer ele ficar quieto o suficiente para conseguir botar a coleira para então sairmos de fato. Ele adora uma coçada na barriga, pula na minha cama cedo de manhã, doido para o dia começar quando tudo que eu quero é dormir mais um pouco, adora batizar plantas e quando está muito feliz, não consegue se controlar. Faz xixi aonde for. Esse aonde for já foi meu sapato, já foi o corredor daqui de casa, outros lugares inconvenientes. Mas o que eu mais gosto nele é a alegria que vejo nele. Nem todo cachorro tem isso. Ele alegremente se mete onde não deve, como pular dentro da janela aberta do carro da Claudia ou se enfiar em quartos onde não pode. Não custa muito para ele ficar contente e começar a abanar o rabo. Depois da morte súbita da Dax e do Neguinho, o Wilson acabou sendo meu melhor presente de Natal para mim mesma.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Famílias
Mais um trecho do meu romance O Que Ficou Por Fazer."Famílias tinham etapas, fases, evoluíam no tempo, apresentavam novas faces para o mundo. Isso era uma coisa que não tinha me ocorrido antes e agora me parece perfeitamente natural enquanto observo Vovó Ana e Chico conversando à mesa do restaurante diante de mim. Gosto da visão dos dois juntos, gosto da idéia de finalmente reunir as partes separadas de minha vida que antes tinha mantido cuidadosamente separadas por tanto tempo. Era aniversário dela e achei que tinha tudo a ver levá-la para jantar depois dos muitos programas de infância que ela nos proporcionou. Minha avó estava encantada com Chico, contava um resumo da história familiar para ele, fazendo questão de destacar as realizações de minha mãe, a estrela dos Miranda. Vovó não sabia, mas ele tinha se vestido com extremo cuidado para a ocasião, colocou seu blazer cor de mostarda com sua melhor camisa branca e uma calça jeans nova, esmerou-se na hora de pentear o cabelo (que ele tinha mania de deixar espetado, despenteado). Ele me perguntou se devia usar uma gravata. Achei uma gracinha que ele se preocupasse tanto em causar uma boa primeira impressão. Eu sorri e disse a ele: — Ela é minha avó, não o papa. A comemoração oficial seria no domingo, com um elaborado almoço, como sempre. Eu tinha decidido que era hora de apresentar Chico à família, mas queria fazer isso aos poucos, em pequenas doses, para não pressioná-lo. E minha avó parecia extremamente satisfeita em ter sido a primeira a ser selecionada para esta honra. Ainda assim, era estranho estar sentada aqui, escutando eles tagarelando alegremente, um muito encantado com o outro, enquanto sentia que tinha alguém faltando à mesa. De uma hora para a outra, ela parecia tão frágil nos seus 87 anos. Minha avó sempre pareceu ser eterna, sempre os mesmos vestidos elegantes, as mesmas bolsas em que ela parecia ser capaz de guardar tudo, o cabelo sempre pintado de louro, o eterno perfume de lavanda e talco. Agora, eu via que corria o risco de perdê-la. Ela, como minha mãe, envelhecera da noite para o dia. Daniel tinha sido seu preferido. Ela não admitia, dizia que todos seus netos eram igualmente queridos, mas ninguém na família acreditava nela. Era para ele que ela fazia suas melhores sobremesas, dava os presentes mais caros, preparava os pratos preferidos dele para os almoços de domingo. Ele vivia no colo dela quando pequeno e, mesmo adulto, adorava ficar abraçado com ela, a única pessoa a quem ele demonstrava tanto afeto abertamente. Com todas as outras pessoas, ele era reservado, quase frio. E ela sempre o tratou por “meu menino”. Foi o que ela não cansou de repetir durante o velório, enquanto acariciava seu rosto, parada ao lado do caixão, meu menino, meu menino. Quando Vovó Ana chegou no restaurante e eu a apresentei ao Chico, ela me olhou bem nos olhos e perguntou se isto queria dizer que eu finalmente iria desencalhar. — Calma, vó — respondi, rindo. — Uma coisa de cada vez. Mas estava patente a esperança na expressão dela. Ela queria bisnetos. Só que ela estava olhando para a pessoa errada. A idéia de ter filhos ainda me assustava. Não quis dizer que ela teria que depender dos meus primos, sempre muito mais sociáveis que Daniel e eu. Logo, um deles estaria se casando e se reproduzindo. Nossa família iria adquirir outra feição com a chegada de novas gerações, novos rostos, crianças brincando pelo chão, correndo pela casa na noite de Natal, e a ausência de Daniel se tornaria uma lembrança apagada embora querida, uma foto a ser colocada na estante. Descubro-me começando a relaxar enquanto ouço minha avó contar histórias constrangedoras sobre minha infância e adolescência. Não me incomodo desde que ela não comece a mostrar fotos de minha fase de vítima da moda. Vovó decide contar sobre meu único grande gesto de rebelião contra minha mãe, quando eu sumi do Jardim Botânico durante um passeio. É estranho ouvi-la descrever o lado da minha mãe da história, de me procurar desesperadamente pelo parque, preocupada, imaginando os piores desfechos. O que me lembro era que minha mãe queria me levar para um restaurante que eu odiava depois do passeio e eu decidi dizer não, que queria ir para casa. Não recordo agora se estava cansada ou se armei o barraco para conseguir atenção dela, uma estratégia perfeitamente razoável para uma menina de 12 anos necessitada de carinho. De todo modo, quando ela bateu o pé e insistiu que fôssemos para o restaurante, eu simplesmente saí correndo e fui para casa. Caminhei o trajeto todo já que estava sem dinheiro para o ônibus, arrependendo-me do meu gesto impensado depois de perceber que não estava com a chave do apartamento, mas decidida a não dar o braço a torcer. Fiquei sentada na porta de casa, esperando minha mãe chegar para que eu pudesse ir ao banheiro. Dona Carolina ficou tão aliviada ao me ver que nem chegou a me dar um grande castigo. Ela esqueceu que eu podia até ser mal-criada, mas continuava sendo uma menina ajuizada. Eu ameacei voltar para casa e foi exatamente o que eu fiz. Todos fazemos isso em um momento ou outro, essas coisas que sabemos lá no fundo que estão destinadas à mágoa e ao desastre. Algo em nós provoca um curto-circuito em todas as luzes de aviso, o alarme interior de cautela nos dizendo para ter cuidado, para dar o fora enquanto ainda é tempo. Faz parte de quem somos, todas as idiotices que cometemos e que, a seu modo, também encontram um meio de nos moldar. Havia uma mensagem da Antônia no correio de voz do meu celular. Ao sair da sua casa, dei meu cartão de visitas a ela e agora ela me liga insistentemente, querendo se encontrar comigo de novo. Antônia parece determinada a me transformar em sua amiga, como um meio, talvez, de tentar reparar sua traição de meu irmão. Ou talvez, através de mim, ela queira saber porque Daniel se matou. De todo modo, não tenho certeza se quero me aproximar dela. Sua sedução era um tanto assustadora e tinha medo de ser puxada para seu círculo. Ao mesmo tempo, seria uma forma de ter acesso a um lado de meu irmão do qual eu não sabia muito. Enquanto pensava no que fazer, meu celular e sua mensagem pesavam toneladas no meu bolso. Há uma sensação estranhamente familiar neste situação, uma espécie de déjà vu deslocado. Minha avó sempre foi a guardiã da história da família. Ela conseguia listar os nomes de todo mundo nas gerações anteriores, identificar quem era quem nas fotos em preto e branco antiqüíssimas que ela guardava zelosamente na sua casa. Isto não era muito diferente daqueles almoços de domingo em que ela fez questão de instruir a mim e Daniel nas histórias de nossos tataravôs, já há muito mortos, os imigrantes portugueses que vieram abrir uma mercearia aqui no Brasil. A loja não existia mais. Ela foi vendida há muito tempo pelos meus bisavôs em função de uma crise econômica ou outra, e eles então se dedicaram ao serviço público para ganhar seu sustento. E muitos anos depois, nos anos 70, o prédio neoclássico onde a loja tinha funcionado foi vendido, demolido e um prédio de apartamentos moderno construído no lugar. Mas ela fazia questão de apontar o local e era isso o que eu sempre lembrava quando passava por lá. Vovó Ana nos contou essas histórias várias e várias vezes. Eu há muito tinha esquecido os detalhes, não vendo muito interesse em pessoas que nunca tinha conhecido. Porém, agora eu imaginava que esta seria minha função nesta família também, a de preservar as histórias de Daniel para aqueles que o conheciam pouco ou que nunca o viram. Esse era um tesouro que valia a pena salvaguardar, uma lição que ela tentou me ensinar pouco a pouco com o passar dos anos. Minha mãe parecia não ter absorvido nada do passado. Ou talvez sua rebelião contra a mãe a tivesse feito rejeitar o passado que Ana tanto idolatrava. De repente me bateu que esta era a mulher que tinha dado forma a minha mãe e, indiretamente, a mim também. Era estranho pensar nisso já que eu não sabia quase nada da infância de minha mãe, apenas a versão filtrada que minha avó forneceu a mim e meu irmão nesses anos todos. Eu realmente não fazia idéia se Dona Carolina tinha sido solitária ou gregária, o que ela gostava e desgostava quando adolescente. A história de minha mãe que eu tinha na minha cabeça era basicamente composta de seus anos como adulta, todas as coisas que nós mesmos testemunhamos, as pistas que reunimos das narrativas que outros nos contaram. Era como se ela tivesse sido gerada na forma adulta final que conhecíamos tão bem, como Palas Atená brotando da cabeça de Zeus, já paramentada com capacete, armadura e escudo. Talvez, de certo modo, todos nós rejeitássemos parte do que nossos pais tinham a nos oferecer, ingratos, ansiosos por afirmar nossa independência. Não que esta rebelião tivesse produzido qualquer grande realizador em nossa família. Com a exceção de Dona Carolina, ninguém mais exibiu qualquer talento especial. Éramos todos lentos e sóbrios em empregos comuns e tradicionais. Ninguém iria ficar rico, ninguém iria se destacar. E até a morte de Daniel, a família acreditou que seria poupada de qualquer tragédia. Ocorre-me que o que eu reconheço aqui é a essência de minha avó, a coisa que a torna ela mesma, transparecendo nessa nova aparência desgastada. Ela só foi momentaneamente ocultada da visão. Ela voltou à superfície, e estou contente que o Chico possa vê-la como ela é agora, não doente sobre uma cama de hospital, ou pior, dentro de um caixão. Não tenho mais um irmão para mostrar e assim decidi mostrar a ele os outros membros de minha família para que ele saiba que eles existem, que é deles que eu venho, estas são as minhas origens, estas são as pessoas que me fizeram ser quem eu sou. O momento passa e me vejo admirando esta visão mais uma vez, minha avó e meu namorado juntos, conversando, e penso que fiz uma coisa boa. E sinto-me privilegiada por ser capaz de estar aqui e ouvi-los, sabendo que é algo que posso não ter por muito mais tempo, que a perda está em toda a volta agora, uma presença definitiva na sala e em tudo o que eu fizer de agora em diante."
Mastering the art of Asian cooking
Nunca soube cozinhar. Nunca aprendi a cozinhar. Aprendi a fazer a receita tradicional que passou pela minha avó e minha mãe de salada de batata alemã (a verdadeira salada alemã, não essa maionese de batata que aqui passa como salada alemã). Se eu tinha de chamar gente para ir em casa ou se eu e uns amigos íamos passar um fim de semana numa casa de praia, eu fazia a salada de batata alemã. And that's it. Sou chata para comer, sempre fui, o efeito colateral de uma infância como filha de diplomata, indo a bons restaurantes. Eu não queria aprender a fazer arroz com feijão, ensopadinho de carne moída com quiabo. Odeio essas coisas. Eu penei na época em que trabalhava em Vila Isabel e o único restaurante decente das redondezas só servia os pratos tradicionais de todo restaurante instalado perto de escritórios e gente que trabalha. Churrasco a campanha, filé a Oswaldo Aranha, bauru, filé com batata frita e arroz. Fora isso, só havia botecos, pratos feitos e aqueles ovos de cores suspeitas no balcão e que eu nunca tocaria em um milhão de anos. Daí eu sempre pensei, para que cozinhar se é isso o que há para fazer? E o que eu via em restaurantes me parecia complicado demais para tentar cozinhar em casa. Só que aí surge na minha televisão essa figura maravilhosa chamada Nigella Lawson, a sacerdotisa da gula desavergonhada. Tudo o que ela faz no programa dela, todas as receitas soam tão apetitosas e sensuais naquele seu maravilhoso sotaque inglês que começou a dar vontade de cozinhar. Eu aprendi a fazer um assado de batata com ela, depois subverti a receita para meus próprios propósitos: me dar uma overdose de batata, algo que eu adoro. Bom, o tempo passa, eu descubro a comida tailandesa depois de descobrir a comida japonesa. E em algum momento do ano que está quase terminando, me ocorreu que eu poderia aprender a cozinhar comida tailandesa. Comecei a ficar de saco cheio de comer comida congelada e passei a comer em restaurantes vezes demais para o bem do meu orçamento. Se eu ia aprender a cozinhar, seria para cozinhar pratos que eu adoro comer. Comprei um wok em São Paulo durante a Monstra e foi um inferno meter aquela coisa dentro da mala para trazer de volta para o Rio. Já estreei o wok, fazendo alguns pratos inventados da minha cabeça, comprei uma pancada de livros com receitas da culinária tailandesa. Só falta ir para uma loja de produtos orientais para comprar coisas como nirá e óleo de gergelim e molho de peixe. Em função disso, minha amiga Claudia resolveu me dar uma aula de culinária asiática como presente de Natal. Fomos a um lugar chamado Café Em Pauta, em Botafogo. Esperávamos ver um café mesmo, com fachada, mesinhas e o caramba. Não. Era uma casa de vila encantadora (e que me deu vontade de comprar, ou pelo menos alugar). Entramos e tivemos uma aula ótima com a chef Ana Clara Richard do Ásia, um dos melhores restaurantes asiáticos do Rio. A aula foi ótima, os outros alunos divertidos e a professora tornou muito mais fácil uma coisa que eu acharia bem complicada do contrário. Nós nos empanturramos com a comida feita durante a aula e Claudia e eu estamos pensando seriamente em fazer um Ano Novo com as receitas que aprendemos ontem. E hoje, inspiradas pela aula de hoje, vamos jantar em um restaurante tradicional chinês que tem aqui na Tijuca. Vai ser uma delícia. Como diria Julia Child, bon apetit.
Liquidificador
Existe a velha e inevitável pergunta que sempre fazem em eventos. O que o escritor escreve é autobiografia? Confesso que eu nunca entendi de onde é que vem essa ideia. Que diferença faz saber se o que o escritor escreveu aconteceu mesmo ou não quando o que realmente interessa é a qualidade do texto. Eu pelo menos gosto de jogar tudo no liquidificador. Posso até usar pessoas que conheço ou coisas que vi acontecer. Outras horas eu meio que roubo ideias de filmes ou outros livros ou até mesmo de quadrinhos, como um conto que eu escrevi inspirada por um segmento do Watchmen (o quadrinho, não o filme). Mas quando tudo é picado e jogado no liquidificador, o que sai é pura ficção e não tem nada a ver com a minha vida, nem a vida de ninguém. E tomara que não tenha mesmo. No meu primeiro romance, há um irmão que comete suicídio. No texto que escrevo agora há um pai que dá surras nos filhos. Essas são coisas que posso garantir que nunca aconteceram na minha vida. Mesmo que você use algo que aconteceu com você é um pouco como aquele processo que os atores usam em cena. O ator lembra de algo que lhe aconteceu e que de certa forma se assemelha ao momento que ele está passando em cena. Lembrar desse momento o ajuda a trazer à tona a emoção necessária. O trabalho do escritor não é diferente disso. O ator está usando as palavras dos outros. O escritor usa as suas. E nos dois casos trata-se de usar as emoções do passado e trazê-las para o presente. E no instante em que você tira essas cenas do seu contexto original, tudo vira ficção.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Aérea
Volta e meia sou forçada a reconhecer que não vivo neste mundo real de todo dia. Eu habito minha própria dimensão, uma ligeiramente deslocada desta aqui. Não é à toa que, há muitos anos, meus amigos me deram bóias no meu aniversário porque eu "vivo boiando". Lançando um filme durante o Festival do Rio, encontro uma dica que diz "ignore o pancadão". Eu espero ver uma briga. Quando a atriz do filme bota para tocar um funk com uma batida bem forte, a ficha cai. Pancadão é isso. Outro filme, outro dia. A dica diz, "aparece o Caio Blat". E eu, encarrapitada no balcão do Odeon, me pergunto, "Quem é Caio Blat?" Surge um sujeito que começa a falar. Esse deve ser o Caio Blat. Se eu o visse na rua, não saberia quem é. Não assisto à TV aberta, não vejo novelas há dois séculos. Não conheço nenhum desses atores novos. Caio Blat aparece em outro filme no mesmo festival. Não parece ser a mesma pessoa, mas já que estão dizendo que é ele, eu aceito. E semana passada eu saí inocentemente no domingo para escrever na Travessa e depois, como é meu hábito, fui jantar no Leblon. Para quê? Dei de cara com hordas tomando as ruas, bloqueando o trânsito. Eu não fazia a menor ideia de que era a final do campeonato naquele dia. Não presto atenção no noticiário esportivo. Eu só sei que vai ter uma Copa do Mundo porque o ufanismo aqui que é tanto que nem eu consigo ficar alheia a isso. (Aliás, desconfio que 2014 e 2016 serão anos insuportáveis por causa do ufanismo geral que tomará conta do país.) Sentada na varanda de um restaurante ontem, esperando chegar minha comida, eu tinha a nítida impressão de ser uma pessoa diferente na rua do que sou em casa. Meu olhar é diferente, mais atento e, ao mesmo tempo, distante. É como se fosse meu olhar de estrangeira. É aquele que se foca nos menores detalhes das pessoas em volta, pequenos momentos reveladores. Para a escritora, esses são os mais interessantes.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Parede
Bater com a cara na parede pode ser uma coisa produtiva quando você escreve. Parece um pouco com um contrassenso, mas descubro vez após vez que é verdade. Se você chega a um ponto em que não pode avançar mais com o texto, é necessário parar e avaliar o que se tem nas mãos. Ocasionalmente, é preciso voltar atrás, recomeçar. E isso não é de todo ruim. Voltar atrás pode colocá-lo no rumo certo, iluminar aspectos do texto que não tinha notado antes. No sábado vou recomeçar a segunda metade do romance, mas agora com uma visão melhor do que quero e para onde vou. Este fim de semana será produtivo.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Escrever
Li uma matéria publicada no site da CNN em que o escritor Junot Diaz falou da batalha que foi escrever seu primeiro romance, que mais tarde recebeu o Prêmio Pulitzer. Ele descreveu um período de cinco anos durante o qual escreveu e escreveu e escreveu todo santo dia, mas nada do que escrevia prestava. Teve uma hora em que ele decidiu engavetar tudo e tentar um outro caminho, uma outra profissão qualquer porque estava claro que ele não era um escritor. Só que aí , um dia, às vesperas de embarcar nesse novo caminho, ele sentou e olhou de novo o que tinha escrito e começou a escrever de novo. Levou mais alguns anos até que ele terminasse o romance, mas ao final do artigo ele diz que ele se tornou escritor não apenas por escrever mas por insistir quando não havia esperança de que aquele texto resultasse em um romance, que aquilo de fato fosse levá-lo a algum lugar. Ser escritor não tem a ver com publicar, com encher cadernos de textos, mas com aquela necessidade que não vai embora, as rodinhas que não param de girar na sua cabeça embora você esteja ocupado no seu trabalho ou numa festa ou no bar com os amigos. Ser escritor é perseverar.
domingo, 6 de dezembro de 2009
É Natal
Inauguraram a árvore na Lagoa, então o Natal, pelo menos para mim, começou oficialmente. Não fico animada com o Natal, não fico contando os dias e odeio ter de comprar presentes em shoppings e lojas lotados. Inclusive acho meio ridículo que as decorações de Natal comecem a surgir cada vez mais cedo no ano, uma mania que, desconfio, importamos dos Estados Unidos. Em São Paulo, no início de novembro, o pessoal já estava começando a decorar um centro comercial que ficava na frente ao Conjunto Nacional e uma igreja ali perto. Mas o Natal tem suas compensações. A árvore da Lagoa em si, que eu gosto de ver, as luzes que o pessoal começa a pendurar em toda parte e deixa a cidade com um ar mais festivo que eu gosto e, acima de tudo, as rabanadas que começam a ser vendidas no supermercado. Não sei fazer rabanada, nunca soube, mas eu adoro, especialmente rabanada no dia seguinte, embebida de canela e leite e meio que desmanchando. Não sou muito fã de peru ou de farofa ou essas comidas todas. Eu sinto falta é da rabanada, que a gente só come nessa época do ano. Mas para minha felicidade, há algum tempo que o supermercado que frequento semanalmente vende rabanadas nesta época do ano. Eu compro quilos e como no lanche ou no café da manhã. É uma delícia. Viva a rabanada.
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